Fragmentos 1 – ‘CAPÍTULO DOS VESTIDOS’

“”Vestidos longos, dai-me enfim a calma…” Assim poetaria Bilac, se vivo fosse, ante a descida oportuna das roupas femininas, que veio restituir ao transeunte um pouco daquele sossego que os vestidos escandalosamente curtos lhe roubaram.
Um pocuo, sim, porque o diabo da moda tira em uma extremidade o que acrescenta na outra, e eu estou vendo decotes que anulam a ação pacificadora das pontas compridas dos vestidos. Há quem esconda as pernas para mostrar os braços – e como ambas essas partes do corpo estão no pluarl, o resultado é o mesmo, e por sinal que bem inquietante. Por isso tive a cautela suficiente para dizer que os vestidos longos vieram trazer-nos um pouco de sossego, não muito, e para que muito?
Sim, para que muito sossego neste mundo tão breve, se o outro, que nos espera, é, na opinião dos técnicos, o reino do perpétuo silêncio? É bom que as mulheres nos perturbem ao passar;e que, passando, deixem não apenas a memória de um “Nuit de Noel” ou de um perfume árabe no olfato da gente, mas também o pensamento, a saudade e o contorno de uma forma bonita, oculta num pedaço de seda que brilha e que foge.
Não sou inimigo dos vestidos longos. Também não sou inimigo dos vestidos curtos. Para dizer toda a verdade, a questão é mais de corpos que de vestidos e onde se viu desclassificar esteticamente um corpo, só porque ele tem dez ou quinze centímetros mais ou dez ou quinze sentímetros menos do que outro? Assim o vestido, forma transitória que não vale por si, mas pela harmonia, que compõe com o todo humano que é chamado a envolver,.
Forma que sugere ou revela, que esconde ou mostra, em todo caso forma inquietante, vestido bonito e colorido que encanta os nossos olhos sempre infantos – minúsculo ou maiúsculo, pouco importa.
Afinal, estas linhas deviam ter um pensamento inicial qualquer. Volatizou-se. Não sei bem o que queria dizer dos novos e interessantíssimos vestidos, que emagrecem as mulheres e lhes emprestam um outro ritmo, uma outra beleza. Sei apenas que eles são o diabo – como os amigos.”

Carlos Drummond de Andrade
‘Moda Roupa e Tempo – Drummond Selecionado e Ilustrado por Ronaldo Fraga – página 69

* Fragmentos é a nova seção do blog. Todo final de semana pedaços de textos, músicas, poemas. Para refletir, para guardar. Para sentir. mercedes

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~ por namidia assessoria de comunicação em 28 abril, 2008.

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